quinta-feira, 10 de junho de 2010

Maquiné está com sistema ecológico degradado

O Rio Maquiné apresenta dezenas de trechos comprometidos em sua qualidade ambiental, com leito assoreado e margens desprovidas de vegetação ciliar. Pela importância ecológica regional e social, o rio necessita de ações urgentes para reverter ou minimizar esse quadro.

Localizada entre a escarpa do Planalto [Serra do Mar] e o Oceano Atlântico, a bacia hidrográfica do Maquiné possui 422km2, com grande diferença de altitude entre a nascente e a foz, em torno de 800m, com média de volume de chuvas anuais em torno de 2.000 mm e uma capacidade expressiva de água transportada. Por isso, constrói extensas planícies de sedeimentos que são intensamente exploradas para o uso agrícola.

O projeto da ONG ANAMA de Recuperação de Áreas Degradadas, patrocinado pelo Programa Petrobras Ambiental, contratou a empresa Âmbar, que prepara o diagnóstico para intervir no rio. Na entrevista mais abaixo, a geóloga Adriane Venzon faz uma avaliação sobre as primeiras visitas de reconhecimento.

Partindo de uma visão sistêmica, onde água-solo-floresta-clima estão relacionados, estão sendo realizadas ações específicas em 25 pontos críticos do rio, num total de 2.500 metros de extensão: no ambiente de leito, onde há acúmulo de seixos e cascalhos, o excesso desse material será removido e utilizado para contenção dos desbarrancamentos e caso ainda haja excesso para calçamento de vias públicas. Nas margens dessas áreas, no ambiente de terra, será feito reflorestamento com espécies nativas encontradas na região. Todas essas ações estão sendo apresentadas à comunidade e são licenciadas pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam/RS), que colaborou desde a elaboração do projeto.


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Entrevista

Quais foram os trechos visitados?
Os seis trechos iniciais localizados na parte do rio que atravessa a área urbana, em direção à montante. São trechos importantes, que serão os primeiros a serem trabalhados.

Você poderia descrever a situação das áreas?
Me chamou atenção o assoreamento do rio, em especial dois trechos acima, onde o canal original está bastante desviado e já corre por dois caminhos. E a questão das margens que estão também bastante degradadas, o que facilita processos erosivos.

Que tipo de uso da terra pode ter levado a essa situação?
Ali é uma região muito conhecida pelo plantio de hortifrutigranjeiros e no decorrer dos anos foi feita uma ocupação das Áreas de Preservação Permanente do rio. Mas não foi somente o fator antrópico, ele se soma ao natural, que é o assoreamento da calha do rio, o que leva à alteração do comportamento hidrodinâmico do seu fluxo e faz com que ocorram erosões nas margens.

Que tipo de ações e intervenções o projeto prevê para a recuperação dessas áreas?
Estamos ainda fazendo um reconhecimento. Sabe-se que serão trabalhados 25 trechos, que já estão pré-selecionados, mas para serem executados dependem da concordância dos proprietários. Então, isso também depende da receptividade deles - pelas informações, tem sido boa, com planejamentos de 20, 30 metros de trechos onde vai ser permitida a recuperação da mata ciliar.
O desassoreamento será feito através da limpeza da calha do rio, com equipamentos apropriados, dentro dos critérios ambientais, para normalizar seu fluxo. Porque em vários trechos ele represa, o que provoca as cheias. No momento em que ele perde o fluxo e a velocidade, na incidência de chuvas de precipitação muito alta, fatalmente vai extravasar.

Depois dessa primeira etapa de reconhecimento, qual a próxima fase do projeto?
Parte técnica de levantamento específico para cada trecho. Fazer o diagnóstico e apresentar para a Fepam. E obter a licença de instalação que dará possibilidade de realizar a intervenção.

O que te chamou mais atenção até agora?
Foi a consciência dos proprietários do entorno do rio. Eles entendem que temos que tentar recuperá-lo, para evitar os efeitos das cheias que acabam por atingir direto aos que vivem na margem. Tem sido feito um trabalho, nesse sentido, muito positivo.

Depoimentos de agricultores atingidos pelo assoreamento:


José Ervino Jacob - da Linha Fagundes
Logo que eu vim morar aqui, há 30 anos, o canal do rio era aqui. Nos últimos dez anos é que se formou essa ilha, com as pedras se amontoando no meio do leito. Isso dividiu o rio em dois canais e arrombou a estrada que passa aqui ao lado. A prefeitura foi colocando essas pedras para as margens, mas abriu um canal muito pequeno, então, aterrou novamente. Essa árvore foi arrancada dos barrancos e parou aqui, mas essa é só um exemplo, porque o que desce de árvore quando dá enchente... E uma árvore do tamanho dessa, aqui nesse ponto, represa muito mais pedra.


Elton Bopsin - da Linha Cachoeira
Quando eu era pequenote, o rio tinha outra formação, com seus contornos bem marcados. Nos últimos 20 anos as pedras foram acumulando, alterando o curso e agredindo os barrancos, com a força da água cada vez mais forte. E ninguém sabe de qual maneira ele pode vir a ficar mais para a frente. O tempo é o resultado disso e se querem melhoria é preciso preservar as margens, mas a prioridade é a canalizacão do rio, aprofundando a calha e fazendo com que a água não escorra para fora do leito. Eu defendo isso como um primeiro passo, até que me provem o contrário. Reflorestar, hoje, vai demorar para dar resultado e, nesse tempo, o rio pode comer mais um tanto de barranco.

Por Julia Aguiar e André de Oliveira
Fotos: Dilton de Castro / ANAMA

Nora e o morro

Nora-morro, com megafone, na rua, no palanque, na viela, estralando pipoca e gargalhando com as crianças, gritando, sorrindo e caminhando, nascida com o sol e fecundada pela terra.

Como disse um morador, lá no morro as raízes das pessoas se confundem com as raízes das árvores. Nora-pedra, encravada, não está em cima do morro, mas dentro dele, assim como ele está dentro dela.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aprender a viver na cidade

A Cris Rodrigues, do blog Somos Andando, conversou com o geólogo Rualdo Menegat, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e doutor na área de Ecologia da Paisagem.

Partindo do Morro Santa Tereza, as questões nos fazem pensar que precisamos aprender a viver na cidade, que é mais do que sobreviver. O caminho não é individual, não é o egoísmo. Qualquer saída para o caos é coletiva. Tem que haver respeito pela diversidade, pela biodiversidade. Mais, tem que haver empenho em preservá-la. Precisamos de espaços de respiro, onde ainda possamos alimentar nossa humanidade, seja aliviando os olhos com uma mancha verde ainda não concretada, um tempo pra um chimarrão na frente de casa com os vizinhos ou se encantar com o sabiá distraído no galho de uma pitangueira. Se não nos interessa mais essa sintonia, se não conseguimos compreender que existem interesses vitais e anteriores aos do mercado imobiliário, bem, aí já nos quebramos.


A entrevista completa está publicada no Sul21. Recortamos uns trechos pra você ler aqui também, porque a prosa está muito boa. Mas se quiser entender tudo dentro do contexto, precisa ir lá.


Pode-se discutir a relação do Morro Santa Tereza com a cidade pontualmente, ou a discussão é mais ampla e aprofundada?

...Para a megacidade de Porto Alegre não faz falta nenhum edifício que a torne mais atrativa, mais bonita, mais interessante, ela não precisa de novas construções arquitetônicas para conseguir atrair investimentos. Nós já somos 4,5 milhões de habitantes (Região Metropolitana) numa enorme plataforma de concreto que não precisa mais de edificações. Cada metro quadrado de área verde, isso sim, ela precisa. Seus estoques ambientais estão no limiar, reduzidíssimos, porque os processos da megacidade são muito rápidos.

De que forma esse pedacinho de Porto Alegre, o Santa Tereza, se insere nesse contexto da megacidade? Qual a importância dele nesse contexto?

Assim como a megacidade tem seus ícones arquitetônicos, urbanísticos... da mesma maneira nós precisamos dos nossos ícones ambientais. Não é que não pode existir cidade, não é mais essa a nossa visão. O que nós não podemos mais admitir é uma cidade como se ela fosse uma cápsula fechada, que exclui, que varre de si a natureza, mas como um ambiente capaz de interagir com a natureza. E esse ambiente é ao mesmo tempo ambiental e cultural.

Qual é a importância ambiental de manter essas manchas?

Entendendo esse sítio como parte de uma megacidade, ou seja, que sofre uma pressão imensa. Então nós temos que ter uma estratégia ambiental e cultural, senão ela soçobra. Se for só ambiental, vão ficar meia dúzia de ecologistas se desesperando para defender o impossível. Temos que entender a margem do Guaíba como um corredor ecológico, ambiental e também cultural, porque o Guaíba pode ser um local de fruição, de prazer. E com isso nós culturalmente sinalizamos que a água do Guaíba é importante. Essa é a primeira conectividade.

A segunda é a dos morros. Essas manchas dos morros podem se comunicar entre si e com o corredor da margem. O Morro Santa Teresa tem importância ecológica e ambiental em termos de sustentação das outras manchas. Hoje a cidade vê como ameaça a defesa dos nossos estoques ambientais. Mas nós é que estamos ameaçados por essa cidade, as pessoas sentem que ela está violenta, parada, desleixada, caótica, e as pessoas tendem a se perguntar por quê.

O Jornal do Comércio fez um levantamento que em quatro meses foram aprovados 1.289 projetos imobiliários em Porto Alegre, com 1,5 milhão de metros quadrados de área construída. Que consequências isso traz?

Desastrosas. A cultura humana está empobrecendo, como se nós estivéssemos lobotomizando aquilo que define a essência do ser humano, que não é andar sobre duas pernas, não é só ter um cérebro grande. O que é essencial é a capacidade desse indivíduo bípede, com seu cérebro, de interpretar a paisagem e transformar essa interpretação em cultura, em instrumentos que lhe possibilitam sobreviver. Se eu estou transformando a paisagem num imenso monólogo, numa mesma linguagem que nada informa, bom, eu estou conduzindo esse cérebro ao seu embotamento.

E de quem é a responsabilidade por a gente ter chegado a esse ponto?

Essa responsabilidade é muito grande, então nós vamos dizer que ela é uma responsabilidade civilizatória. O problema não é dessa cidade nem daquela, não é desse país nem daquele. O elemento operador dessa cegueira, como diria o Saramago, é a ideologia urbana. Se você perguntar para o cidadão o que ele quer da cidade, ele quer que seja veloz, limpa, não quer pensar de onde vêm os materiais que ele consome e para onde vão depois de serem consumidos. Ele quer que a cidade tenha todas as ofertas disponíveis no planeta.

A cidade tem em essência duas importantes ideologias: a da voracidade e a da velocidade. E essa voracidade é tão estúpida que, dada a enormidade de rejeitos que a cidade produz e que poderiam ainda ser usados, nós poderíamos ter qualidade de vida para imensos contingentes populacionais. A cidade tem que pelo menos deixar de ser egoísta com seus rejeitos. Ela precisa ser transformada na sua ideologia profunda, para que queira menos e assimile mais.

E a outra ideologia urbana, que é terrível, é a velocidade, responsável por nós não olharmos mais o jardim do nosso edifício, a rua. Antigamente era muito comum as pessoas de um edifício, de uma casa, sentarem-se na frente, na calçada, pra tomar um chimarrão. E hoje, você vê ainda? Essas coisas tão importantes da vida comunitária a cidade perdeu. Esse é o grande perigo. Essa é uma tendência que não é local, é mundial.Sim, é da civilização.

Mas falando de Porto Alegre, parece que agora finalmente vai ser aprovada a revisão do Plano Diretor. Para que direção essa revisão está levando Porto Alegre?

O Plano Diretor atende à normatização imobiliária e à cobrança de impostos que deriva disso, o quanto o caixa do município vai encher. Não se discute a gestão integrada da cidade. Ela cresce, se complexifica, se torna veloz, se torna voraz etc., e a nossa cultura não é capaz de acompanhar esses desafios com instrumentos adequados. E por quê? De novo a questão cultural. Esses instrumentos atendem a um certo perfil de interesses, de empreiteiros, de donos de imóveis, de fornecedores.

Como reverter...?

Não há solução tecnológica, primeira questão. A ciência não sabe o que fazer, não é uma caixa de magia, que toca com uma varinha mágica e tudo se resolve. Seria como pedir para ciência parar um vulcão. Não podemos fazer isso, é da dinâmica da Terra. É melhor saber prever e como preservar a vida diante de uma extrusão vulcânica. É preferível uma cultura que aceite o vulcão.

Mas o que nós podemos fazer, então? Nós podemos é mudar a cultura. E nós não temos outra maneira de mudar a cultura urbana se não fazendo com que as pessoas participem, se dêem conta.

Foto de Eduardo Seidl, do Sul21.

Tartarugas podem voar

Lembro que saí da sala de cinema e parei na calçada. Não sabia mais pra que lado ir. Nem se eu tinha que ir. Meus pés não se moviam. Estava destruído, despedaçado. Eu vivia no mundo em que "tartarugas" voavam nas mãos de crianças. E agora, o que eu tinha que fazer?

Recebi hoje este convite: A Liga dos direitos Humanos da UFRGS realiza nesta quarta-feira, 09 de junho, o CineDHebate 2010, com a exibição do filme Tartarugas podem voar (Drama, 2004, Irã/Iraque, dir. Bahman Ghobadi).

Após a exibição haverá debate com Dagmar Camargo, coordenadora do Conselho de Rádios Comunitárias do Rio Grande do Sul e Especialista em Direitos Humanos ESMPU/UFRGS.

O CineDHebate em Direitos Humanos começa às 19h, na Sala Redenção/Cinema Universitário da UFRGS. A entrada é franca. Informações pelo email ligadireitoshumanos@ufrgs.br e pelo site.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Quem vai em busca do que é direito tem razão

Àquela hora, o céu tava de cara amarrada. Mas não importa, a juventude marchava com luz própria pela rua.


Quando o caminho se fecha, o pessoal dos movimentos sorri. E se movimenta: "vamos pelo meio da praça então!" Eu ali, de canto, fazendo meu trabalho.


Quem vai em busca do que é direito tem razão. A violência é do Estado.


Ronaldo, lá de cima do carro lembrou: "Somos como massa de pão. Quanto mais bate, mais cresce". E essa massa crescida tem peso!


Jogo de corpo, sabedoria. A Nora, moradora da Vila Gaúcha, disse umas palavras duras para os que jogam mole na Assembleia. Eles precisavam ouvir, mas não estavam ocupados com o povo.

Amanhã, os parlamentares nos dizem se votam para meia dúzia de empresários, ou com vinte mil brasileiros, mulheres e homens que afirmam aqui sua cidadania.

Fotos de Eduardo Seidl, do Sul 21.

domingo, 6 de junho de 2010

Ontem e amanhã, no Morro Santa Tereza

Se alguém ainda não entende por que o Morro Santa Tereza interessa tanto as construtoras, que mobilizam seus amigos no governo do estado para se apossarem da área, olhem esta vista:


As fotos, tiradas por Ana Lúcia, são do campinho de futebol, que fica bem no meio do morro, entre a Vila Gaúcha e a Vila Santa Tereza.


Deve doer nos que acreditam que só gente rica tem direito a usufruir da beleza da vida e a morar em lugares onde se pode ver da janela ou da porta de casa o sol descer no rio, numa cópula dourada que emudece e embriaga qualquer um.

Passamos a tarde de ontem lá, conversando com algumas lideranças comunitárias. Seu Darci, presidente da associação de moradores da Vila Gaúcha, diz que não tem nada contra a Copa do Mundo em Porto Alegre, pelo contrário. Pensa que a comunidade poderia se beneficiar com o evento, ao invés de ser expulsa da área para que empreeendimentos de luxo se instalem ali. Sonha com uma escadaria que ligasse a avenida Padre Cacique com o campinho de futebol, que seria reconstruído pra receber jornalistas de todo mundo, caçadores de imagens e histórias que a comunidade abasteceria com riqueza.

Seria simples, lógico e justo, não vivessemos numa luta de classes. Os que estão no topo da pirâmide econômica têm ojeriza a essa expressão. Têm medo de que, em algum momento, os que estão na base se deem conta que podem enfrentar os negócios dos de cima se unindo e mobilizando, como agora fazem os 20 mil moradores das cinco comunidades atingidas pelo projeto de lei 388, que a governadora armou pra lhes arrancar do local onde estão há 70 anos. Mas pessoas têm raízes. Não é fácil cortá-las quando elas descobrem isso.

sábado, 5 de junho de 2010

Dias e noites de amor e de guerra

O livro chegou pelo meu irmão mais novo, Robson. Depois, muitas amigas e amigos envolvidos com a resistência da utopia receberam o seu. Dia desses, quando os anos contaram 40, me entregaram mais um. Logo vai parar em outras mãos prometidas pra poesia. Parece que essas histórias conversam comigo como se também fossem minhas. De certa forma são. As carrego no esmalte dos dentes, e com elas mordo meus dias e noites de amor e de guerra. Hoje, me alimento delas. Me inspiro, respiro, miro e vou. Você pode vir, pode ir também:

O vento na cara do peregrino

Edda Armas me falou, em Caracas, do bisavô. Era pouco o que ela sabia, porque a estória começava quando ele andava pelos setenta anos e vivia em uma aldeia nos confins da comarca de Clarines. Além de velho, pobre e mambembe, o bisavô era cego. E se casou, não se sabe como, com uma menina de dezesseis. Volta e meia, escapava. Ela, não: ele. Escapava e ia para a estrada. Agachava entre as árvores e esperava um ruído de cascos ou de rodas. E então saía do mato e pedia que o levassem a qualquer lugar. Assim o imaginava, agora, a bisneta: no lombo de uma mula, morrendo de rir pelos caminhos, ou sentado atrás de uma carroça, envolvido por nuvens de pó e agitando, feliz, suas pernas de passarinho.

por Eduardo, o contador das histórias do mundo do lado de cá.